Trump está certo

O ataque foi uma decisão acertada de Trump, tanto em relação ao regime sírio, como no que tange ao âmbito da política internacional, como também no que se refere à sustentação interna do governo Trump, passando, inclusive, pelo apoio à população síria.
Assim, no que se refere ao governo sírio, ainda que haja muita especulação sobre a participação de Assad no uso de armas químicas em Idlib, é pouco provável que o ditador sírio seja inocente nesse caso. Ademais, lembremos que desde 2013 armas químicas vem sendo utilizadas na Síria em menor escala, mesmo após a realização do acordo entre Assad, Putin e Obama, que deveria ter privado o primeiro dos seus arsenais químicos (a necessidade de atuação de Trump agora demonstra, em certa medida, o fracasso da não atuação efetiva de Obama em 2013). Considerando-se que Assad foi responsável pelo ataque em Idlib, devemos elencar as suas principais motivações, a saber: encurtar a guerra, uma vez que ele não se encontra em uma posição tão vantajosa como se pensa (a noção equivocada de que Assad está vencendo a guerra é a principal justificativa para afirmar que ele não teria motivos para utilizar armas químicas, o que seria uma falácia mesmo que a vantagem de Assad fosse verdadeira - é só lembrar dos EUA e da utilização de Armas de Destruição em Massa no final da Segunda Guerra Mundial, afinal, quem estava vencendo a guerra naquele momento?); a segunda  motivação de Assad consiste em testar a propensão isolacionista de Trump, assim, se o presidente norte-americano não tivesse agido, Assad receberia um sinal positivo para crescentemente escalonar a guerra contra seus inimigos. Conforme o Pentágono, conter futuros usos de armas químicas foi o principal objetivo do ataque estadunidense com os mísseis Tomahawk. 
No âmbito internacional, a decisão foi acertada por ser a melhor alternativa no curto prazo, uma vez que qualquer tentativa de legitimar a ação no âmbito do Conselho de Segurança teria sido fracassada pelo chamado “poder de veto” da Rússia e da China enquanto membros permanentes do CS. No mesmo sentido, a formação de uma coalização com a participação de tropas de vários países seria infrutífera e, caso ocorresse, levaria um tempo maior, o que reduziria o apoio interno à iniciativa do presidente (é curioso perceber que, após o ataque, vários governos ao redor do mundo foram favoráveis à atuação de Trump, assim, ao agir unilateralmente, o presidente norte-americano pode ter conseguido o apoio necessário para incrementar as ações contra Assad, até mesmo por meio das Organizações Internacionais, como é a proposta aventada pelo governo francês, por exemplo). Outra opção possível seria a imposição de sanções, que não tendem a ser efetivas e que acabam punindo muito mais a população local do que o governo. Mesmo assim, cabe ressaltar que as alternativas não são excludentes e que provavelmente os Estados Unidos adotarão mais sanções contra o governo síria, como afirmou Nikk Haley, embaixadora dos EUA na Organização das Nações Unidas (ONU)
No âmbito interno, a administração Trump vinha se desgastando desde a renúncia de Michael Flynn devido a possíveis relações obscuras com oficiais russos. Lembremos todo o histórico de rixas entre Estados Unidos e União Soviética, e que a base eleitoral de Trump não é a mais simpática aos russos. Assim, essa questão possui potencial para desestabilizar de forma considerável o governo do Donald, principalmente ao ser explorada exaustivamente pela grande mídia norte-americana. Ao atacar a Síria, aliada da Rússia, esses questionamentos sobre Trump-Putin acabam sendo mitigados. Dessa forma, Trump abre mão de uma aproximação (tão comentada, mas que nunca ocorreu) com a Rússia para minorar essas questões domésticas. No mesmo sentido, Trump está passando por dificuldades no Congresso, fato que se tornou visível com a dificuldade de aprovar o ato que substituiria o Obamacare, assim, por uma questão de governabilidade, o presidente norte-americano necessita do apoio de figuras importantes de ambos os partidos, que são, por sua vez, a favor de uma posição mais dura contra o governo sírio.
No que se refere à população síria, pôde-se perceber um grande apoio à iniciativa de Trump, uma vez que os sírios têm se sentido esquecidos pela comunidade internacional e deixados à própria sorte. Assim, almejando atingir objetivos políticos mais pragmáticos - e respondendo a um ataque abominável, against beautiful babies -, Trump acaba auxiliando os mais afetados pela atuação sanguinária de Assad.
Por fim, as duas maiores críticas que podem ser feita em relação ao ataque autorizado pelo presidente norte-americano consistem no fato de que o ataque norte-americano também causou a morte de civis. É verdade. Contudo, deve-se lembrar que diferentemente das armas químicas, que são incontroláveis, o ataque executado pelo exército mais avançado do mundo foi uma incursão cirúrgica, preparada para causar o menor número de mortes possíveis (lembremos que apenas no ataque de 2013, comprovadamente atribuído ao governo sírio, 1.500 civis morreram – mas só depois de muito sofrimento). Outra crítica consiste naquela aventada pelo governo russo: os EUA violaram o Direito Internacional e a soberania da Síria. É verdade. Está corretíssimo. Contudo, todos os envolvidos no conflito, inclusive a Rússia – que bombardeia a Síria com regularidade desde 2015 - já violaram o coitado do Direito Internacional uma infinidade de vezes. Não adianta agora mister Putin posar de juiz da Corte Internacional de Justiça, de mantenedor das Convenções de Viena. 
Desse modo, ao analisarmos as alternativas  - e considerarmos as respostas à ação do governo norte-americano -, podemos afirmar que dessa vez Trump acertou.  

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